Preconceito | Mulheres no mundo corporativo

Dando continuidade ao assunto do post “Como lidar com o preconceito corporativo”, e a entrevista concedida a Band sobre o mesmo assunto (Veja aqui), hoje gostaria de abordar especificamente o preconceito sofrido pelas mulheres no ambiente de trabalho. De acordo com a pesquisa divulgada na reportagem acima, 10,16% das mulheres assumem sofrer algum tipo de preconceito na esfera profissional. Porém, este número pode ser ainda maior, pois muitas mulheres podem não perceber que estão sendo vítimas.

headhunterO fato é que desde a última grande transformação da sociedade, em meados da década de 50 do século passado, quando a fonte de valor deixa de ser a força bruta na sociedade industrial e passamos à sociedade do conhecimento, as mulheres entraram na cena do mundo corporativo com igualdade de valor e de potencial.

Mulher, é preciso estar atenta para algumas demonstrações mais veladas de preconceito e para situações onde a empresa passa dos limites com você!

Aparência física

As características físicas de uma mulher não devem ter nenhuma relação direta com seu sucesso profissional no mundo corporativo (nem a dos homens, vale a pena comentar). Quero dizer que para desempenhar funções nas áreas de Finanças, Recursos Humanos, Vendas, Marketing, Produção, Logística, TI, entre outras áreas corporativas, a aparência física não deve ser critério de avaliação.

A aparência física não pode ser motivo de privilégios, nem de privação de oportunidades. O que importa no mundo corporativo é desempenho, capacidade, habilidade e competência. Não pretendo discutir o assédio moral e sexual, que infelizmente também existe, portanto vamos pensar apenas nas questões que envolvem o preconceito.

Diferente do que muitos pensam, até mesmo as mulheres consideradas bonitas sofrem preconceito. Ele pode partir dos colegas de trabalho, quando uma mulher considerada bonita é promovida ou recebe oportunidades de crescimento e os colegas justificam essa ascensão pelo critério beleza. Uma mulher considerada bonita pode ser excluída dos grupos por ser percebida como uma ameaça aos colegas de equipe e pode ser prejudicada por isso.

Se a empresa se importa com a boa convivência da equipe – e deveria – consegue diminuir essa sensação de injustiça sentida pelos colegas explicitando os méritos factíveis que a levaram ao crescimento e, muito importante, não deve, de maneira alguma, demonstrar diferença no tratamento. A postura de tratamento igualitário dos superiores pode trazer mais segurança a equipe. 

Obviamente que existem carreiras dentro do mundo da beleza, da moda e outros segmentos relacionados nos quais a aparência do funcionário precisa ter coerência com o produto por questões de credibilidade. Nesses casos, o marketing do produto se confunde com o marketing pessoal do representante da empresa para o cliente! Isso é importante, não podemos negar! 

Licença Maternidadeheadhunter

Todos sabemos que por séculos a mulher desempenhou uma função central na instituição da família. Ela não tinha acesso a estudo, não podia votar, nem ingressar ao mercado de trabalho. Sua função na sociedade era basicamente casar-se e cuidar dos filhos e do marido, enquanto este sustentava financeiramente a família. Era comum também que engravidassem muito cedo. Já vimos que essa organização de tarefas e funções foi fortemente alterada com o fim da era industrial, quando a mulher passou a ter direitos e oportunidades iguais às dos homens.

headhunterPorém, a herança desse movimento recente é vista na desconfiança de que a mulher não terá a mesma dedicação de um homem a seu trabalho e de que não será respeitada por seus clientes e fornecedores. Os questionamentos mais frequentes são: Será que ela vai ficar até meia-noite trabalhando quando for preciso? Será que ela poderá viajar pela empresa para regiões distantes? Será que nossos clientes a respeitarão (principalmente em mercados ainda muito masculinos)? Será que ela poderá participar das convenções anuais da empresa sem ter problemas com o marido? Enfim, estes e tantos outros questionamentos.

O que ainda não ficou claro para alguns é que o planejamento familiar da mulher mudou e que suas prioridades também se alteraram. Muitas mulheres estão focadas no desenvolvimento de sua carreira em primeiro lugar e por mais tempo. Os avanços na medicina e o aumento da expectativa de vida tornaram possível a postergação da decisão da maternidade para aquelas que querem construir uma sólida carreira antes de se tornarem mães. Antigamente essa não era uma opção. 

Já recrutei para empresas que tinham preferência pela contratação de homens porque alegavam que as mulheres, ao saírem de licença maternidade, atrapalham o desempenho da equipe, gerando, inclusive, prejuízos para a empresa. Isso é discriminação, isso é preconceito. É claro que temos compreensão de que quando a mulher exerce o direito de ser mãe e sai de licença maternidade existem consequências para a empresa, mas nenhuma mulher pode deixar de ser contratada por isso. A licença maternidade é um direito da mulher!

headhunterO bom senso deve existir também para entendermos que as oportunidades de carreira podem ser diferentes para a mulher que interrompe seu ciclo profissional para ser mãe. É um afastamento como outro qualquer e para retomar o crescimento profissional ela deverá se dedicar pós-maternidade e deve encarar como natural certa defasagem em relação aos colegas de trabalho, homens e mulheres, que continuaram trabalhando no mesmo período. Isso não é discriminação.

Mulheres casadas e com filhos geralmente estão livres desse preconceito. As mulheres solteiras também não são as mais afetadas, mas com frequência são questionadas sobre sua intenção de ter filhos (Atenção! Essa pergunta nem sempre é direta e clara). Já as mulheres casadas, sem filhos e com menos de 40 anos, são as maiores vítimas dessa discriminação e também são frequentemente questionadas a respeito de suas intenções.

Conclusão

A entrada e a consolidação das mulheres no ambiente corporativo obviamente aconteceu de forma gradativa e nunca foi uma obrigação para todas as mulheres, foi apenas mais uma opção que se abriu em relação às escolhas de seu futuro. Ainda hoje muitas mulheres escolhem ficar em casa e assumir somente os papéis de esposa e mãe.

headhunterOutras, porém, escolhem construir carreira no mundo corporativo e adiam planos da vida pessoal, como a maternidade, ou decidem que tudo ocorrerá ao mesmo tempo. Essa é uma decisão da mulher e a empresa não deve interferir. O que deve ficar claro é que nenhuma mulher pode deixar de ser contratada pelo fato de ser mulher. Deve, porém, haver bom senso e transparência para a busca de coerência. Se a empresa está contratando um profissional para participar de um projeto extremamente demandante pelos próximos 12 meses, e a candidata está tentando engravidar, cabe a ela também entender que não há coerência entre projeto profissional e projeto pessoal. Se ela não for contratada para este projeto, não foi por questões preconceituosas por parte da empresa.

Não existe regra para o planejamento familiar, como havia “mais ou menos” em sociedades anteriores. Mulheres hoje são mães aos 15, aos 20, aos 25, aos 30, aos 35, aos 40, aos 45+. Mulheres escolhem ser mães solteiras, ou escolhem não ser mães. Independentemente disso, a licença maternidade é um direito da mulher e questionamentos e insinuações à respeito da intenção da maternidade podem ser um sinal de preconceito, principalmente se houver privação de oportunidades a partir de uma resposta afirmativa. 

O bom senso deve existir sempre. Não se deve encarar tudo como preconceito e violação  dos direitos da mulher porque existem linhas muito tênues que cercam este assunto. A descontinuidade de uma mulher em um processo seletivo nem sempre se deve ao fato de ser mulher, de pretender engravidar, ou de não ser considerada bonita. O mesmo raciocínio é válido para a oferta de oportunidades, ou seja, a mulher nem sempre está sendo vítima de um preconceito quando não é promovida ou não recebe o convite para uma expatriação. A coerência física exigida por algumas indústrias também deve ser respeitada e não encarada como preconceito 100% do tempo. Apesar de existir a possibilidade SIM de uma mulher estar sendo discriminada nestas situações.

É preciso estar atenta para não ser vítima de injustiça.
#PorUmMundoSemPreconceito

Por hoje é só! Espero que a leitura tenha valido a pena. Fico a disposição para darmos continuidade a esse tema e para receber sugestões, críticas e comentários. Se ficarem mais a vontade, este é meu e-mail direto: camila.donati@headsrh.com.br.

Grande abraço a todos.

Camila Donati

Como lidar com o preconceito corporativo?

Na semana passada, durante uma partida de futebol, o jogador Daniel Alves surpreendeu a todos com uma atitude de resposta a um ato de racismo no qual um torcedor jogou uma banana em campo, fato que foi interpretado como associação do jogador negro a um macaco.  Esse episódio foi noticiado exaustivamente pela mídia internacional e, inclusive, deu início ao movimento #somostodosmacacos contra o racismo e, de forma mais abrangente, contra o preconceito.

Adendo: exposição e consequências

Antes de falar sobre o preconceito, gostaria de chamar a atenção de vocês para um fenômeno atual: a exposição em esfera global de um ato local. Tudo bem, vocês podem estar pensando que futebol é um esporte televisionado e que já tem espaço na mídia há um bom tempo. Mas não podemos ignorar o fato de que hoje sabemos de situações particulares que aconteceram em pequenas vilas no interior de países da África, ou de casos de abusos que acontecem em cidades pequenas da Europa, entre inúmeros outros casos. Não só sabemos dos fatos, mas sabemos dos nomes dos envolvidos, onde trabalhavam, quem são e onde moram os familiares, enfim. Percebam que não é mais possível desassociarmos nossa imagem pessoal da nossa imagem profissional.

Pensando em algo mais realista e comum do que tais escândalos, é praticamente impossível mantermos um bom nível de privacidade depois que a internet foi inventada. Suas fotos, suas opiniões, as opiniões dos outros a seu respeito, onde você estudou, onde morou, … tudo pode ser encontrado com uma simples busca no Google. Já procurou seu nome completo, entre aspas, no Google? Faça esse exercício.

headhunterApesar de não ter responsabilidade sobre atitudes preconceituosas cometidas por seus profissionais fora do ambiente de trabalho, é importante ressaltar que a imagem da empresa pode ser associada ao ato. Como já abordado anteriormente AQUI neste Blog, na internet não existe canto escuro, ou seja, não é mais possível se esconder. Como no jogo de futebol do Villareal X Barcelona, a atitude do torcedor do Villareal expôs a imagem do clube (que respondeu imediatamente se pronunciando contra atitudes racistas, provavelmente assessorado por um excelente assessor de imprensa especializado em crises). Mesmo que você não tenha Facebook, Twitter e Instagram, basta que alguém próximo a você tenha. Além do torcedor que jogou a banana em campo, o Clube do qual ele pertence, a empresa de cerâmica na qual ele trabalha, a família, os amigos.. todos foram expostos aos olhares críticos do público após este episódio.

O Preconceito nas empresas

Uma empresa é uma reunião de pessoas de criações e valores diferentes, que convivem juntos por um objetivo comum. Como poucas pessoas são tomadoras de decisão em relação a formação da equipe, nem todos do grupo escolheram estar juntos nesta situação, mas devem respeitar o próximo – ensinamento que deve ser exportado para a esfera pessoal, com certeza.

headhunterAlém dos preconceitos em relação a cor, orientação sexual, idade, gênero, deficiências físicas e doenças crônicas, aceitar e respeitar diferentes níveis de performance, capacidades e habilidades parece ser uma tarefa mal executada por muitos profissionais. As empresas são permeadas de muito preconceito, o que pode dificultar e afetar a vida de muitas pessoas.

Dentro das empresas, esse preconceito geralmente vem de superiores, de pares e, em alguns casos mais raros, de clientes e fornecedores.

Como esse preconceito se manifesta nas empresas

Preconceito ativo x Preconceito passivo

O preconceito corporativo se manifesta de várias maneiras, algumas mais sutis, outras mais declaradas. Pessoas que não são convidadas para os almoços rotineiros, não são chamadas para os cafezinhos, são desacreditadas em público quando participam de discussões, não recebem bom dia e boa tarde, podem estar sofrendo algum tipo de preconceito cujo principal conseqüência é a exclusão do grupo. Ou até pode ser uma pessoa desagradável que ninguém gosta de ter por perto, é preciso investigar.

headhunterAlgumas pessoas lidam bem com este tipo de situação e não são afetadas pelo preconceito, pois estão focadas em atingir os objetivos profissionais ao invés de se preocuparem com o que os outros pensam a seu respeito. Geralmente, se os superiores não participam destas atitudes, é mais fácil ignorá-las. Porém, muitos profissionais sofrem traumas em situações como essas e passam por sérios problemas, principalmente de cunho psicológico, o que afeta diretamente sua vida pessoal e, claro, sua performance na empresa. É comum que peçam demissão sem dizer o real motivo, inventando desculpas.

Quando o preconceito acontece por parte dos superiores, as conseqüências são sentidas no desenvolvimento da carreira do profissional. Os casos mais comuns acontecem quando os superiores escolhem certos preferidos na equipe oferecendo a eles diferentes oportunidades, ou quando de maneira cômica comentam de seu trabalho em público. De acordo com a lei de assédio moral, um comentário do tipo “até uma criança faria seu trabalho”, quando acontece de forma repetitiva, é um exemplo de discriminação.

Quando homens recebem oportunidades diferentes de mulheres, assim como negros de brancos, ou quando uma mulher é incentivada a não engravidar para não prejudicar a produtividade da empresa, temos casos claros de preconceito. Acontece que hoje muitos estão conscientes de seus deveres e direitos e, com provas materiais e testemunhas, é possível se defender dessas agressões.

headhunterHá também aqueles que são contagiados pelo preconceito do outro e participam das conversinhas sussurradas ou dos bate-papos nos cafés, não se posicionam contra opiniões preconceituosas com medo de não pertencer mais àquele grupo. Estes não são ativamente preconceituosos e, às vezes, são mais uma vítima desta situação, por viverem em um ambiente no qual têm que ignorar seus próprios valores com medo de serem a próxima vítima do grupo e até mesmo de perder o emprego.

Como lidar?

Existem fatores externos que dificultam muito a homogeneidade do grupo, como os valores da família, a criação e a própria individualidade da pessoa. Ou seja, os profissionais chegam às empresas com suas diretrizes de posturas e crenças.

Porém, uma forma de tentar trazer homogeneidade é criando um ambiente favorável ao diálogo, com gestores que lideram pelo bom exemplo e não incentivam atitudes desta natureza. É preciso combater os sinais mais tímidos de preconceito antes que ele se tornem algo comum e influenciem até mesmo a cultura da empresa. Falando nisso, a criação de uma cultura organizacional agregadora em seus valores pode mitigar parte do fenômeno.

O que deve ser combatido é a atitude preconceituosa, mas, em paralelo, o ambiente de transparência, diálogo e confiança pode favorecer a denúncia antes que seja tarde demais. Porém, quando ocorrer uma denúncia é preciso haver ação e punição, caso contrário a gestão da empresa será desacreditada e psicologicamente os preconceituosos serão vitoriosos.

O papel do RH

headhuterMais estratégico do que nunca, a área de Recursos Humanos, hoje também conhecida como Gestão do Capital Humano deve liderar iniciativas contra o preconceito e à favor da igualdade. O trabalho mais importante, que talvez somente esta área possa realizar é a conscientização dos líderes da companhia (todos aqueles com gestão de pelo menos um colaborador) sobre o problema. Em seguida, um trabalho intensivo para que haja a liderança através do exemplo e a declaração de que este tipo de comportamento não será tolerado pela empresa.

Além disso, esta área deve ser uma opção para receber as denúncias, pois nem sempre há liberdade com os gestores diretos, principalmente quando o agressor é tido como preferido ou protegido. Nesses casos, o RH deve cultivar relações de confiança com todos os funcionários da empresa e dar abertura para que eles tenham com quem conversar a respeito destas situações.

Ainda não tem bons motivos, além da questão ética, para resolver o problema?

As consequências para a empresa podem ser enormes e irreversíveis: Processos de assédio moral, impactos na produtividade da empresa, mudança de cultura da organização, exposição negativa da marca da empresa, alta rotatividade de profissionais, baixa atratividade na contratação de novos funcionários, entre muitos outros.

Para quem sofre o preconceito

Se você está passando por esta situação, aqui vão algumas dicas para tentar resolvê-la:

  • Em casos sérios de assédio moral: não deixe de registrar provas sobre o ocorrido e listar testemunhas que presenciaram as agressões, que devem ter acontecido repetidamente. Fatos isolados não são considerados.
  • Em casos de exclusão do grupo por questões preconceituosas: procure conversar com o “agressor” e pontuar seu incômodo em relação às atitudes; se não resolver, fale com seus superiores e com o RH, se houver abertura.
  • Em casos de brincadeiras de mau gosto: novamente sugiro que converse com o autor das brincadeiras. Elas podem não ter sido feitas de maneira intencional ou se foram, podem deixar de acontecer se você se posicionar.
  • Sempre busque ajuda na área de Recursos Humanos.

Se não conseguir resolver desta forma, infelizmente os caminhos serão: pedir demissão, ignorar as agressões ou tomar as medidas cabíveis na justiça.

#PorUmAmbienteDeTrabalhoSemPreconceitos

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Ainda temos muito para conversar sobre isso. Você tem alguma sugestão? Algum caso real que aconteceu com você? Você alguma dica para dar aos departamentos de Recursos Humanos para lidarem melhor com esta situação? Fale comigo através do email: camila.donati@headsrh.com.br

Grande abraço a todos e excelente final de semana.

Camila Donati