As seleções de cada empresa

O histórico da seleção brasileira nesta Copa do Mundo e os acontecimentos no jogo contra o Chile, no último sábado, têm muito a nos ensinar. Faço o convite agora para buscar essas lições comigo.

O cenário de pressão por resultados

Desde antes do início da Copa do Mundo de 2014 a seleção brasileira já era considerada uma das favoritas ao título por alguns motivos: pela excelente campanha na recente na Copa da Confederações, da qual foi campeã com o mesmo time que se apresenta na Copa do Mundo; por ser a seleção com o maior número de títulos na Copa do Mundo; por ter tradição no futebol; por estar jogando em casa e poder contar com o apoio da torcida, entre outros.

A crítica, a frustração, o mau desempenho, as dificuldades

No sábado, depois de jogar por 120 minutos contra o Chile, dos quais 90 minutos foram de jogo regular e 30 foram de prorrogação, o resultado de 1×1 não determinava qual equipe avançaria na competição e qual deixaria o campo com a eliminação. Pelas regras do campeonato, a partida deveria prosseguir para a decisão por pênaltis.

A seleção estava, naquele momento, em seu quarto jogo pelo mundial. Com leve exceção do jogo contra Camarões, o time canarinho acumulava críticas sobre estratégia tática e desempenho técnico em campo. Os jogadores sentiam o peso da frustração e a responsabilidade pela vitória. Nesse jogo, o quarto, contra o Chile, apareceu um novo elemento para ser discutido: a inteligência emocional.

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Os brasileiros começam a se preparar para o início dos pênaltis e algumas reações individuais chamam a atenção de todos:

  1. O capitão do time, Thiago Silva, pede ao técnico da seleção para não cobrar nenhum pênalti e, se for preciso, que seja o último, inclusive depois da cobrança do goleiro. Neste momento, ele afasta-se da seleção, senta sobre a bola, abaixa a cabeça e começa a rezar. Thiago Silva preferiu não assistir aos pênaltis. Thiago chorou.
  2. O goleiro, Júlio Cesar, vê a oportunidade de reescrever a história e sair como herói da partida, pois a última eliminação da seleção brasileira em Copa do Mundo, há quatro anos atrás, foi colocada sob responsabilidade dele. Desde então sua carreira sofre grandes desilusões. Antes do início das cobranças e ele pede aos batedores que façam sua parte, pois ele defenderá dois pênaltis. Júlio chorou.
  3. Ressurge Paulinho, jogador que perdeu a condição de titular na última partida por ter se apresentado mal em campo e ter sido substituído por Fernandinho, que jogou melhor na ocasião e ainda presenteou o Brasil com um gol. Tido como abalado emocionalmente por isso, Paulinho se infiltrou na roda de abraço da seleção, formada pela comissão técnica e pelos jogadores, e com muita lucidez começou a dizer palavras de incentivo ao coletivo e individualmente a cada um dos envolvidos na próxima etapa, a rodada de pênaltis. Isso não era responsabilidade dele e ninguém havia solicitado tal atitude.
  4. O aplaudido zagueiro da seleção, David Luiz, que passou os 120 minutos anteriores jogando com dificuldades de respirar devido a uma lesão nas costas, pede ao técnico para que seja o primeiro a cobrar o pênalti, chamando a responsabilidade para si. David chorou.
  5. Neymar, garoto de 22 anos, apontado por muitos como forte candidato ao título de melhor jogador do mundo muito em breve, que desde o primeiro tempo do jogo estava jogando com fortes dores no joelho e na coxa, devido a faltas cometidas em cima dele, também o técnico e pediu para que fosse o último, o decisivo, o mais pressionado. Neymar chorou.

Conclusão

headhunterPodemos tirar importante lições para o nosso dia-a-dia corporativo do que foi colocado acima, pois as empresas são formadas por times, com divisões de tarefas e de papéis, para que seja atingido um objetivo comum, um resultado final. Os times sofrem pressões externas e internas, passam por avaliações de performance que guiam os próximos reajustes e o resultado coletivo é alcançado por dedicações individuais. Junto a isso tudo, a inteligência emocional, individual e coletiva, também é um fator de extrema importância em paralelo com as habilidades técnicas e com o bom direcionamento tático.

Lição 1: Os indivíduos reagem de maneiras diferentes a eventos semelhantes.

Se você é um líder: conheça bem seu time, entenda como cada um funciona sob pressão e descubra quem você deve elogiar para corrigir, quem você deve criticar duramente para corrigir, para quem você deve dar o exemplo para corrigir, e assim por diante. Se você não é líder: também é importante conhecer como reagem seus colegas para construir um ambiente cooperativo e já treinar para desafios de liderança.

Lição 2: Os líderes nem sempre correspondem às expectativas e abrem espaço para lideranças paralelas.

Na hora de contratar, na hora de promover, na hora de escolher o líder que estará a frente de uma equipe, é preciso estar atento a inteligência emocional desse profissional. Em linhas gerais, espera-se que em momentos de pressão o líder assuma a situação, mostre serenidade, apresente soluções, redefina papéis e aja sobre o emocional da equipe. Espera-se atitude de um líder, que obviamente é imperfeito e na teoria pode errar, mas na prática, a omissão de um líder pode custar caro. Por isso, papéis de liderança nas organizações devem ser distribuídos aos que apresentam diferenciais emocionais.

Um líder deve ser legitimado por seus liderados e, quando o líder escolhido não corresponde às expectativas é normal que surjam lideranças paralelas espontâneas, como o caso do David Luiz, do Paulinho, do Julio Cezar, de outros. Por mais que seja natural, essa situação pode gerar sérios problemas, como deixar a equipe perdida, sem saber quem deve seguir. É preciso estar bem claro: este é o líder.

Lição 3: O coletivo vence, o individual se destaca.

Todas as equipes têm seus destaques, mas o princípio coletivo deve ser muito bem trabalhado. Ele pode ser estimulado de diversas maneiras e o ideal é desenvolver o espírito coletivo de acordo com as particularidades do seu time. Algumas empresas optam por bonificar resultados coletivos ao invés de resultados individuais, mas é preciso avaliar se incentivos financeiros são os melhores incentivos para sua equipe.

Por fim…

Muitos choraram, antes e depois. Outros tantos rezaram. Fraqueza ou força, nem os psicólogos especialistas no assunto conseguiram definir, apenas concluíram que cada um entende de um jeito o fato do líder se ausentar, o fato dos companheiros chorarem, Neymar ser o último a cobrar. 

E você, quais lições adicionaria à essa lista? Tem alguma situação real para compartilhar com nossos leitores? Me escreva: camila.donati@headsrh.com.br e eu selecionarei mensagens para compartilhar (podem ser anônimas).

Grande abraço,

Camila Donati