Precisamos falar sobre Mudança!

Hoje vou contar a história do Carlos (claro que esse não é seu nome, estou preservando sua identidade).

Conheci o Carlos em 2007, logo quando comecei na carreira de Headhunter. Mesmo depois de milhares de entrevistas, ano após ano, me lembro perfeitamente de algumas dessas conversas. A entrevista do Carlos é uma delas.

Eu ainda era um Consultor Junior e estava acompanhando essa entrevista com um Consultor mais experiente, como parte do meu processo de treinamento. Era uma entrevista para uma posição de Gerente Sênior de Contabilidade.

Carlos havia sido desligado recentemente da empresa em que passou mais de 20 anos de sua carreira, uma grande multinacional, onde ocupava a posição de Gerente Geral de Contabilidade.

A conversa estava correndo bem, quando no meio da entrevista esse consultor lançou uma pergunta um tanto inusitada:

  • Carlos, você gosta de Contabilidade?

Acredito que ninguém havia feito essa pergunta para ele até aquele momento, nem ele. Depois de um tempinho refletindo, respondeu em um tom entristecido:

  • “…Não…”

Para Carlos, a contabilidade sempre foi o caminho mais lógico a seguir: seu pai e seu tio também eram contadores, sócios de um pequeno escritório contábil e lá começou sua carreira aos 16 anos, como Office Boy.

Carlos cursou Técnico em Contabilidade, logo em seguida entrou na Graduação – também em Contabilidade – trabalhando durante o dia nesse escritório e estudando à noite. No último ano decidiu sair do escritório para estagiar nessa grande empresa em que passou os últimos 20 anos, até ser desligado.


No início daquele ano sua empresa havia sido vendida para outra grande empresa, ainda maior. A área de Contabilidade da nova empresa era ainda maior e melhor estruturada que a sua, com uma equipe forte e um Gerente ainda mais experiente.

Infelizmente, os novos Diretores perceberam que não havia espaço para dois Gerentes no mesmo time e decidiram desligar o Carlos, junto com outros colaboradores, em meio a uma reestruturação geral.


Antes que alguém pergunte, o Carlos era um ótimo profissional! Sua carreira foi ascendente: de Estagiário se tornou Assistente, depois Analista, Coordenador, Supervisor, Gerente e até chegar na posição de Gerente Geral, liderando uma equipe com mais de 40 colaboradores!

Nesse período ainda teve diversos reconhecimentos e, apesar de não ter se formado em uma faculdade de primeira linha, se manteve atualizado, fazendo cursos de extensão, pós-graduações e especializações diversas, inclusive nas ferramentas de gestão mais importantes de sua área.


Com a notícia do desligamento, Carlos novamente seguiu pelo caminho mais lógico: buscar uma nova posição na área de Contabilidade!

Acontece que até aquele momento ele não havia percebido que não gostava dessa áreaContabilidade definitivamente não era sua paixão, era apenas um ofício. 

(Ele certamente era um daqueles profissionais que conta as horas para o final do expediente na sexta-feira, comemora a chegada do final de semana e fica deprimido com a vinheta do Fantástico…)

Talvez sua paixão fosse a área de Marketing, ou Logística, Qualidade, ou até uma carreira no setor público! Talvez nem ele soubesse qual era…

O que ele sabia é que naquele momento de sua carreira ele talvez já não tivesse muitas alternativas em qual caminho seguir… Que talvez já fosse tarde para se aventurar em uma nova área, em que ele não teria experiência suficiente para concorrer com outros profissionais mais jovens e com mais bagagem do que ele.

Além disso, já era casado e tinha dois filhos, definitivamente não se sentia confortável para mudar naquele ponto de sua vida…


  • Pô Fernando, que história triste!

  • Calma…


O objetivo de compartilhar essa história com vocês foi justamente para ilustrar uma situação mais comum que muitos imaginam. Existem milhares de Carlos por aí!

E olha que interessante: o Carlos não fez nada de errado! Ele simplesmente delegou para sua empresa a responsabilidade de planejar sua carreira!

Lembram que o Carlos trabalhava em uma grande empresa? Lá ele certamente passava por reuniões periódicas de avaliação de desempenho, com a presença de seus gestores e da área de Recursos Humanos. E nessas reuniões ele definitivamente ouvia que “a empresa havia desenhado um plano de carreira para ele”.

Afinal, como duvidar?? A empresa ainda tinha evidências para comprovar isso: suas diversas promoções, reconhecimentos, bônus no final do ano, carro com despesas pagas, etc…


Meu objetivo nessa reflexão é lembrar vocês de algo muito importante: O responsável pelo planejamento de sua carreira é você! Não é sua empresa, seu gestor, seu colega, seus pais, seu coach ou seus mentores (aliás, se você tiver mentores em sua carreira, parabéns!)

Entendo que planejar a carreira não é uma tarefa nada fácil, pois exige constantes reflexões sobre seus objetivos, além de exigir uma auto-avaliação clara e honesta, analisando os rumos que estão sendo tomados e os pontos de correção que devem ser feitos. Dificilmente é possível fazer isso sozinho.

Mas é justamente nessa hora que é possível desenhar novos planos, que incluem as mudanças!

As mudanças são difíceis, pois acontecem fora de nossa zona de conforto

Um professor meu sempre diz, de maneira brilhante, que a carreira é mais parecida com uma maratona do que com uma corrida de 200 metros. Ele está coberto de razão!

É muito comum que um profissional se encontre em uma posição desfavorável no meio da corrida. Entretanto, não adianta nada um sprint para retomar suas posições e assumir a liderança. Esse resultado não será duradouro e dificilmente ele vai conseguir concluir a prova nessa posição. Atalhos podem funcionar apenas no curto prazo!

Para melhorar sua posição na prova são necessários esforços constantes, talvez quase imperceptíveis no curto prazo, mas que certamente terão efeitos duradouros e de longo prazo, especialmente quando feitos de maneira estratégica, alinhados com os objetivos maiores e orientado para o futuro.

Felizmente percebo que cada vez existem outros “Carlos” por aí buscando mudanças. Não apenas por remuneração, mas por trabalhos que sejam GRATIFICANTES.

(Inclusive, várias pesquisas apontam que a busca pela realização está na frente da busca por um salário maior, na procura de um novo emprego. E que ter um emprego ruim pode ser pior para sua saúde mental que estar desempregado!)

E para você, quais são os gatilhos importantes para sua realização profissional?

O que faz você acordar todo dia e ir trabalhar??

Será que o “plano de carreira” que sua empresa oferece a você está alinhado com o seuplano de carreira? Ou são apenas recompensas estrategicamente colocadas, para manter você dentro da organização enquanto você é importante para ela?

E o que você está fazendo para atingir seus objetivos?

Todos nós precisamos fazer essa reflexão.


(Para quem está preocupado com o Carlos, fique tranquilo! Hoje ele está muito bem, é Diretor Financeiro de uma empresa de menor porte. Mas continua contando as horas pra chegada do final de semana…)

(Texto originalmente publicado no LinkedIn Pulse em fevereiro/2017)

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