Como lidar com o preconceito corporativo?

Na semana passada, durante uma partida de futebol, o jogador Daniel Alves surpreendeu a todos com uma atitude de resposta a um ato de racismo no qual um torcedor jogou uma banana em campo, fato que foi interpretado como associação do jogador negro a um macaco.  Esse episódio foi noticiado exaustivamente pela mídia internacional e, inclusive, deu início ao movimento #somostodosmacacos contra o racismo e, de forma mais abrangente, contra o preconceito.

Adendo: exposição e consequências

Antes de falar sobre o preconceito, gostaria de chamar a atenção de vocês para um fenômeno atual: a exposição em esfera global de um ato local. Tudo bem, vocês podem estar pensando que futebol é um esporte televisionado e que já tem espaço na mídia há um bom tempo. Mas não podemos ignorar o fato de que hoje sabemos de situações particulares que aconteceram em pequenas vilas no interior de países da África, ou de casos de abusos que acontecem em cidades pequenas da Europa, entre inúmeros outros casos. Não só sabemos dos fatos, mas sabemos dos nomes dos envolvidos, onde trabalhavam, quem são e onde moram os familiares, enfim. Percebam que não é mais possível desassociarmos nossa imagem pessoal da nossa imagem profissional.

Pensando em algo mais realista e comum do que tais escândalos, é praticamente impossível mantermos um bom nível de privacidade depois que a internet foi inventada. Suas fotos, suas opiniões, as opiniões dos outros a seu respeito, onde você estudou, onde morou, … tudo pode ser encontrado com uma simples busca no Google. Já procurou seu nome completo, entre aspas, no Google? Faça esse exercício.

headhunterApesar de não ter responsabilidade sobre atitudes preconceituosas cometidas por seus profissionais fora do ambiente de trabalho, é importante ressaltar que a imagem da empresa pode ser associada ao ato. Como já abordado anteriormente AQUI neste Blog, na internet não existe canto escuro, ou seja, não é mais possível se esconder. Como no jogo de futebol do Villareal X Barcelona, a atitude do torcedor do Villareal expôs a imagem do clube (que respondeu imediatamente se pronunciando contra atitudes racistas, provavelmente assessorado por um excelente assessor de imprensa especializado em crises). Mesmo que você não tenha Facebook, Twitter e Instagram, basta que alguém próximo a você tenha. Além do torcedor que jogou a banana em campo, o Clube do qual ele pertence, a empresa de cerâmica na qual ele trabalha, a família, os amigos.. todos foram expostos aos olhares críticos do público após este episódio.

O Preconceito nas empresas

Uma empresa é uma reunião de pessoas de criações e valores diferentes, que convivem juntos por um objetivo comum. Como poucas pessoas são tomadoras de decisão em relação a formação da equipe, nem todos do grupo escolheram estar juntos nesta situação, mas devem respeitar o próximo – ensinamento que deve ser exportado para a esfera pessoal, com certeza.

headhunterAlém dos preconceitos em relação a cor, orientação sexual, idade, gênero, deficiências físicas e doenças crônicas, aceitar e respeitar diferentes níveis de performance, capacidades e habilidades parece ser uma tarefa mal executada por muitos profissionais. As empresas são permeadas de muito preconceito, o que pode dificultar e afetar a vida de muitas pessoas.

Dentro das empresas, esse preconceito geralmente vem de superiores, de pares e, em alguns casos mais raros, de clientes e fornecedores.

Como esse preconceito se manifesta nas empresas

Preconceito ativo x Preconceito passivo

O preconceito corporativo se manifesta de várias maneiras, algumas mais sutis, outras mais declaradas. Pessoas que não são convidadas para os almoços rotineiros, não são chamadas para os cafezinhos, são desacreditadas em público quando participam de discussões, não recebem bom dia e boa tarde, podem estar sofrendo algum tipo de preconceito cujo principal conseqüência é a exclusão do grupo. Ou até pode ser uma pessoa desagradável que ninguém gosta de ter por perto, é preciso investigar.

headhunterAlgumas pessoas lidam bem com este tipo de situação e não são afetadas pelo preconceito, pois estão focadas em atingir os objetivos profissionais ao invés de se preocuparem com o que os outros pensam a seu respeito. Geralmente, se os superiores não participam destas atitudes, é mais fácil ignorá-las. Porém, muitos profissionais sofrem traumas em situações como essas e passam por sérios problemas, principalmente de cunho psicológico, o que afeta diretamente sua vida pessoal e, claro, sua performance na empresa. É comum que peçam demissão sem dizer o real motivo, inventando desculpas.

Quando o preconceito acontece por parte dos superiores, as conseqüências são sentidas no desenvolvimento da carreira do profissional. Os casos mais comuns acontecem quando os superiores escolhem certos preferidos na equipe oferecendo a eles diferentes oportunidades, ou quando de maneira cômica comentam de seu trabalho em público. De acordo com a lei de assédio moral, um comentário do tipo “até uma criança faria seu trabalho”, quando acontece de forma repetitiva, é um exemplo de discriminação.

Quando homens recebem oportunidades diferentes de mulheres, assim como negros de brancos, ou quando uma mulher é incentivada a não engravidar para não prejudicar a produtividade da empresa, temos casos claros de preconceito. Acontece que hoje muitos estão conscientes de seus deveres e direitos e, com provas materiais e testemunhas, é possível se defender dessas agressões.

headhunterHá também aqueles que são contagiados pelo preconceito do outro e participam das conversinhas sussurradas ou dos bate-papos nos cafés, não se posicionam contra opiniões preconceituosas com medo de não pertencer mais àquele grupo. Estes não são ativamente preconceituosos e, às vezes, são mais uma vítima desta situação, por viverem em um ambiente no qual têm que ignorar seus próprios valores com medo de serem a próxima vítima do grupo e até mesmo de perder o emprego.

Como lidar?

Existem fatores externos que dificultam muito a homogeneidade do grupo, como os valores da família, a criação e a própria individualidade da pessoa. Ou seja, os profissionais chegam às empresas com suas diretrizes de posturas e crenças.

Porém, uma forma de tentar trazer homogeneidade é criando um ambiente favorável ao diálogo, com gestores que lideram pelo bom exemplo e não incentivam atitudes desta natureza. É preciso combater os sinais mais tímidos de preconceito antes que ele se tornem algo comum e influenciem até mesmo a cultura da empresa. Falando nisso, a criação de uma cultura organizacional agregadora em seus valores pode mitigar parte do fenômeno.

O que deve ser combatido é a atitude preconceituosa, mas, em paralelo, o ambiente de transparência, diálogo e confiança pode favorecer a denúncia antes que seja tarde demais. Porém, quando ocorrer uma denúncia é preciso haver ação e punição, caso contrário a gestão da empresa será desacreditada e psicologicamente os preconceituosos serão vitoriosos.

O papel do RH

headhuterMais estratégico do que nunca, a área de Recursos Humanos, hoje também conhecida como Gestão do Capital Humano deve liderar iniciativas contra o preconceito e à favor da igualdade. O trabalho mais importante, que talvez somente esta área possa realizar é a conscientização dos líderes da companhia (todos aqueles com gestão de pelo menos um colaborador) sobre o problema. Em seguida, um trabalho intensivo para que haja a liderança através do exemplo e a declaração de que este tipo de comportamento não será tolerado pela empresa.

Além disso, esta área deve ser uma opção para receber as denúncias, pois nem sempre há liberdade com os gestores diretos, principalmente quando o agressor é tido como preferido ou protegido. Nesses casos, o RH deve cultivar relações de confiança com todos os funcionários da empresa e dar abertura para que eles tenham com quem conversar a respeito destas situações.

Ainda não tem bons motivos, além da questão ética, para resolver o problema?

As consequências para a empresa podem ser enormes e irreversíveis: Processos de assédio moral, impactos na produtividade da empresa, mudança de cultura da organização, exposição negativa da marca da empresa, alta rotatividade de profissionais, baixa atratividade na contratação de novos funcionários, entre muitos outros.

Para quem sofre o preconceito

Se você está passando por esta situação, aqui vão algumas dicas para tentar resolvê-la:

  • Em casos sérios de assédio moral: não deixe de registrar provas sobre o ocorrido e listar testemunhas que presenciaram as agressões, que devem ter acontecido repetidamente. Fatos isolados não são considerados.
  • Em casos de exclusão do grupo por questões preconceituosas: procure conversar com o “agressor” e pontuar seu incômodo em relação às atitudes; se não resolver, fale com seus superiores e com o RH, se houver abertura.
  • Em casos de brincadeiras de mau gosto: novamente sugiro que converse com o autor das brincadeiras. Elas podem não ter sido feitas de maneira intencional ou se foram, podem deixar de acontecer se você se posicionar.
  • Sempre busque ajuda na área de Recursos Humanos.

Se não conseguir resolver desta forma, infelizmente os caminhos serão: pedir demissão, ignorar as agressões ou tomar as medidas cabíveis na justiça.

#PorUmAmbienteDeTrabalhoSemPreconceitos

headhunter

Ainda temos muito para conversar sobre isso. Você tem alguma sugestão? Algum caso real que aconteceu com você? Você alguma dica para dar aos departamentos de Recursos Humanos para lidarem melhor com esta situação? Fale comigo através do email: camila.donati@headsrh.com.br

Grande abraço a todos e excelente final de semana.

Camila Donati

 

Uma resposta em “Como lidar com o preconceito corporativo?

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